O poeta Ferreira Gullar fala de sua visão particular sobre o processo educacional - a de que, na verdades, tudo e todos são agentes constantes de educação, e não somente a escola. E defende a melhor formação dos professores. Além, é claro, de melhores salários. |
Ferreira Gullar Um dos mais celebrados poetas da história moderna brasileira, o maranhense Ferreira Gullar exerceu várias atividades antes de publicar o que muitos consideram a sua obra-prima, “Poema Sujo”, em 1976. Antes disso, Gullar trabalhou como redator em jornais, escreveu peças de teatro e foi diretor da Fundação Cultural de Brasília. Entre estas atividades, o escritor também foi um dos presidentes do Centro Popular de Cultura da maior entidade estudantil do país, a União Nacional dos Estudantes (UNE), em 1963. Além de todas estas atividades, também exerceu o seu lado educador. Num de seus discursos mais ferozes, pronunciado em 1983, Gullar, que completou 77 anos no último dia 10 de setembro, ressaltou a importância da educação para a mudança dos paradigmas de sociedade. Além disso, o poeta reforça a temática do “homem como produto do meio”, recorrente da teoria conhecida como determinismo, e lembra que em uma sociedade que trata seus cidadãos com injustiça, a tendência é que a própria educação seja injusta. Passados 24 anos do referido discurso, o poeta fala de algumas das suas posições exprimidas naquela ocasião, comenta o estágio atual da educação no país e fala da importância da classe docente para a formação do cidadão. O texto acima foi escrito há mais de 20 anos. O que mudou na sua visão sobre a educação ao longo deste período? Ferreira Gullar - Não diria hoje que a sociedade injusta educa para a injustiça. Na sociedade injusta há pessoas justas, que educam para o melhor. Em linhas gerais, o Brasil avançou ou retrocedeu na área educacional nas últimas décadas? Creio que avançou, pelo menos no que diz respeito ao ensino fundamental. Hoje temos praticamente quase todas as crianças em idade escolar matriculadas. É possível pensar num modelo de educação eficaz e transformador numa sociedade tão marcadamente injusta como a brasileira? Sim, é possível. A vida é inventada e, por isso mesmo, as coisas podem ser mudadas e melhoradas. Exatamente porque a sociedade é injusta é que devemos lutar para mudá-la e ensinar melhor as pessoas. Acredita que, historicamente, a escola tem servido como reprodutora do sistema social estabelecido, em vez de atuar como um agente de transformação da sociedade? Em grande parte sim, a escola reproduz o sistema social estabelecido. Por isso, é preciso preparar os professores para que compreendam melhor e ensinem melhor. Não se trata de fazer tábula rasa do que existe, já que isso é impossível e, além do mais, errado. Nem tudo o que se ensina está errado, certo? De onde vêm os piores exemplos para a área educacional? Seria mesmo da classe política? A classe política dá um mal exemplo, embora existam exceções. Na maioria dos casos é o que se tem visto. Mas não são só os políticos que, com seu exemplo, educam mal. Partindo desse princípio - de que todos somos educadores - seria correto imaginar que a verdadeira revolução da educação se dará não somente nas escolas, mas principalmente no meio social como um todo? Trata-se de um processo muito complexo, exatamente porque envolve toda a sociedade. A maioria das pessoas se pauta pelos valores conservadores e alguns deles são, de fato, fundamentais, como a justiça, a solidariedade, o respeito pelo outro. Os valores novos custam a se impor e nem sempre são melhores - somente por serem novos. A sociedade os testa, examina, e aceita ou rejeita. O fundamental é evitar que os valores essenciais se percam. Como dar a largada neste processo? Seria o caso de uma campanha nacional de conscientização sobre as responsabilidades de cada um de nós para com os outros? Sim, apostar na educação é fundamental. Mas seria necessário discutir bem antes de partir para uma campanha nacional de conscientização. Não é uma coisa para ser improvisada e sair alardeando. Como vê o papel da mídia brasileira neste contexto? Ela mais educa ou deseduca a população? É a favor de alguma espécie de controle sobre os meios de comunicação? A mídia, no geral, presta um bom serviço, na medida em que informa, traz à tona os problemas e contribui para a sua discussão. Comete erros, mas é melhor errar do que impedir o debate e a divulgação dos fatos e das idéias. É motivo de críticas, entre muitos intelectuais, o fato de o presidente Lula, por vezes, se vangloriar de ter chegado ao posto máximo da República mesmo sem grande carga de educação formal. Como vê essa questão? Até que ponto um presidente com este perfil - e este discurso - é um bom ou um mau exemplo para a população jovem do país? A questão não é ter ou não diploma universitário. Machado de Assis não cursou universidade, mas era um homem culto. Cultura se adquire até sem escola, embora seja melhor que todos possam ir à escola. Ruim é alardear que a cultura é desnecessária e que o corpo-a-corpo com o povo ensina mais que os livros. Uma coisa não exclui a outra, mas os livros ensinam mais, pois contêm as experiências e idéias de muitos homens e de muitas gerações. Numa época em que o conhecimento é fundamental para o desenvolvimento das nações, é melhor que o governante não seja inculto. Quem fez mais pela educação no Brasil: o torneiro mecânico Luiz Inácio Lula da Silva ou o sociólogo Fernando Henrique Cardoso? Fernando Henrique criou o Fundef, que muito contribuiu para a ampliação do ensino fundamental. Lula tem buscado ampliar esse projeto e tomado outras iniciativas em seu segundo mandato. Quais lembranças tem de seus professores? Em que medida eles o atraíram ou o afastaram do universo literário? Não tive estímulo especial de nenhum professor nesse sentido. Mesmo porque, estudei numa escola que visava formar sapateiros, marceneiros e mecânicos. As artes deveriam estar mais presentes no ambiente escolar? Sem dúvida alguma. Deve-se estimular a criatividade das crianças, não para transformar todas elas em artistas. E sim porque a arte enriquece a vida das pessoas. É possível que o professor consiga ser um disseminador da cultura e do hábito da leitura quando, na maioria das vezes, sabemos que ele próprio não tem acesso a estes benefícios? Por isso é necessário formar melhor os professores e, também, pagá-los melhor. De que forma os professores devem trabalhar a literatura em sala de aula? Num mundo tão corrido, repleto de informações e ambientes virtuais, ainda há espaço para o exercício lúdico de embarcar numa viagem proposta por um livro? Não sei a fórmula, não sou professor. Mas não acho que a televisão e o computador tornem inviável o interesse pela literatura. Há, sim, que se começar bem cedo, a fim de que a leitura se torne um hábito na criança. Que mensagem o senhor deixaria aos professores do país no dia 15 de Outubro? Diria aos professores que está nas mãos deles uma das tarefas mais nobres e essenciais para o futuro da sociedade e dos indivíduos. |
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
A educação como produto do meio
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Brasil, Seja Monarca do Mundo!
Oh! Brasil!
Terra natal do meu coração,
amigo que me aquece a alma,
chão celestial da minha vida!
Oh! Brasil!
És minha vida!
Teu levantar impávido
abriu o caminho glorioso
do Kossen-rufu mundial!
Viva, Brasil!
Meu amado Brasil!
Sublime nação do ser humano!
Ainda se aconchega em
meu peito
a doce luz do verão de 1993
que banhava Itapevi,
cidade vizinha de São Paulo.
Ali por fim conheci
o castelo do tesouro,
o Centro Cultural Campestre
com seu exuberante jardim.
A filosofia e a amizade,
ali, são flores banhadas pelo
orvalho da sinceridade.
O fulgor dourado das acácias,
quaresmeiras roxas e rosadas,
vitórias-régias em flor,
brancos lótus tropicais,
mais de cem mil cosmos,
hibiscos, begônias, girassóis...
Todos plantados com dedicação
nos bosques e nas colinas,
florescem radiantes com
todo o esplendor do verde louro.
Ainda me recordo quando sugeri
aos jovens a quem confiei o futuro:
— Vamos dar nome a estas colinas
e àquelas montanhas.
Eles responderam com sabedoria:
— Montanha Mestre e Discípulo!
— Colina Pôr-do-Sol!
Foi um momento de
perfeita harmonia.
Com a beleza de uma obra de arte,
a Colina Pôr-do-Sol se acendeu
escarlate naquela tarde.
Puro esplendor era o poente,
enquanto a Montanha Mestre e
Discípulo mostrava orgulhosa
seu aspecto majestoso.
Foi quando escrevi:
“Sol e bosque são radiantes
na Montanha Mestre e Discípulo
que observa nossa felicidade!”
“Vejo na Montanha Soka
o permanente alicerce
do futuro que nunca se acaba.”
Nada mais belo
do que o reino luminoso
da confiança entre os homens.
Nada mais respeitável
do que o juramento eterno
entre mestre e discípulo.
Disse-me Athayde,
o defensor dos direitos humanos:
— Tanto no Ocidente
como no Oriente,
a mais preciosa virtude
é a confiança no ser humano
cultivada a cada instante
pela crença na relação
entre mestre e discípulo.
A verdadeira crença
eleva e une os homens,
abre e une os corações.
Mestre e discípulo
— a solidariedade verdadeira
entre os seres humanos.
Eis por que a relação
entre mestre e discípulo
é espírito de procura,
desenvolvimento constante
e uma relação eterna.
Kossen-rufu é batalha de mestre e
discípulo.
Buda é quem vence, infalível, e
Brasil é esperança absoluta.
Oh! Brasil!
De tua filha, a índia Iracema,
e do português Martim
nasceu o valente Moacir.
Diz a lenda que desse casal
descende multidão de brasileiros.
Comunhão de raças,
convivência humana,
sonho da democracia racial —
são ideais que fincaram
raízes no Brasil.
Quanto mais te conheço,
quanto mais te visito,
mais palpitante fica meu coração
perante teu poderoso encanto.
O samba, a alma de teu povo.
O carnaval, a energia de tua gente.
Todas as raças cantam e
dançam juntas na maior festa
popular do mundo.
Por que no Brasil
surgiu uma cultura popular
tão autêntica e cheia de paixão?
Ela é a flor e o fruto
de sua turbulenta história
de quinhentos anos.
O anti-humanismo,
o terror da opressão,
a fibra de seu povo soube vencer.
Essa é sua origem.
Nasceu do sofrimento
e da perseverança que venceu
a cobiça secular em busca do ouro.
Por isso proclama orgulhoso:
— Sou teu povo heróico e imbatível!
Por maior que seja o poder,
por mais forte que seja a violência,
nada poderá dominar
a alma altiva do homem.
Um povo autêntico
pode até ser humilhado,
mas nunca destruído.
Quanto mais escarnecido,
mais forte se levanta.
A história da humanidade
aguarda perseverante,
como aurora que se ergue,
a vitória de um povo
sobre seus opressores.
Sua gente heróica move a história
e é a força que abrirá o futuro.
Jorge Amado,
o mestre da literatura brasileira,
enaltece a convivência
harmoniosa das raças
como a dádiva mais
rica dos brasileiros
para a causa do humanismo.
Qual o bem fundamental
que pode o homem deixar
para o futuro da humanidade?
Tão simplesmente o rumo,
o claro e seguro rumo,
para a conquista mais digna
da condição humana:
a convivência solidária das raças.
Oh! Brasil!
Amigos que tanto amo!
A jornada que escolhemos
não é de sossego nem de mágoas.
É o caminhar seguro e valente
desfraldando a
bandeira da esperança,
do otimismo e da convicção!
Não faz mal que seja pouco,
o que importa é que o avanço de hoje
seja maior que o de ontem.
Que nossos passos de amanhã
sejam mais largos que os de hoje.
Que sejam humanistas de
braços fortes
em luta solidária
com as pessoas deserdadas.
Atuem agora e vivam o presente
com a certeza de que neste
exato instante está se
erguendo o futuro.
Deixem seus méritos
gravados na história de suas
contínuas vitórias!
A dificuldade no momento presente
será a glória em seu futuro!
O desbravar do caminho do
novo século será proporcional a
sua caminhada!
Jamais esquecerei
o amigo que luta pela paz, a
amiga que incentiva os
companheiros e o
nobre labor compenetrado
no palco sem desejo de
palmas e ovações.
Oh! filhos do leão!
Os que no Brasil jamais se abalaram
ante a covardia e a ingratidão
de animais disfarçados em mantos clericais, larápios que
usurparam a nobreza do Budismo.
Bonzos decadentes lá em cima
e, embaixo, os membros fiéis
que caminham na retidão:
— Heresia que profana
o sonho brasileiro
da igualdade entre os homens.
Oh! Brasil!
Em ti floresceu a justiça
da Lei Suprema, porque
aprendeste o ensino sagrado:
“Quando bonzos hereges incitam
milhares de seres a banir o sábio,
aquele que mantém em seu coração
o espírito do rei leão
certamente se tornará um buda.”
Oh! Brasil!
Venceste!
Venceste em tudo!
Impávido triunfo conquistaste!
Em Curitiba,
a primeira Praça Makiguti do mundo!
No Estado de São Paulo, a
primeira Rua Toda do mundo!
Em Londrina,
o honroso Parque Ecológico Ikeda!
Do Rio de Janeiro,
a homenagem em louvor à Soka
Tomando a vanguarda do mundo.
E na poética terra do Amazonas
se expande a profunda
amizade e confiança.
Em todo o mundo se distingue
o Brasil com mais de
cem homenagens.
Aqui e ali, em todos os recantos,
desponta o esplendor de
mestre e discípulo Soka exaltando o alto valor de Makiguti e Toda.
Uma pessoa disse admirada:
— No mundo inteiro,
o Brasil é o maior Castelo dos
Três Mestres!
Eis a prova inabalável
que espelha orgulho:
a dedicação de meus companheiros,
cidadãos de bem,
estreitando os laços da
convivência confiante.
Não tenho sombra de dúvida
que a boa sorte desse labor
se estenderá por todas as existências
de geração a geração.
Quem decidiu a vitória colossal
do Kossen-rufu mundial no século XX
foram meus companheiros do Brasil.
E o descortinar do triunfo no século XXI foi abrilhantado
também com galhardia
por meus gloriosos companheiros
do Brasil.
O sábio Darcy Ribeiro
conclui em seu O Povo Brasileiro:
“Estamos nos construindo na luta
para florescer amanhã
como uma nova civilização,
mestiça e tropical,
orgulhosa de si mesma.
Mais alegre porque mais sofrida.
Melhor porque incorpora em si
mais humanidades.
Mais generosa porque
aberta à convivência com
todas as raças e todas as culturas,
e porque assentada na mais bela e
luminosa província da Terra.”
Meus amigos!
No futuro do Brasil não cabe
nem pessimismo nem desilusão.
No horizonte de sua jornada
fulgura sem fim
o azul do céu profundo
de glórias e esperanças.
“A voz executa o trabalho do Buda.”
Eis nossa poderosa arma —
o diálogo sincero,
o rugido corajoso do leão.
A sagrada escritura exalta:
“A Lei não se propaga por si mesma.
Por ser propagada pelas pessoas,
tanto a Lei como as pessoas
tornam-se dignas de respeito.”
Oh! meus amigos!
Por mais distantes que estejamos
nunca estamos separados,
mais próximo está nosso coração.
Percorramos juntos eternamente,
sublimes companheiros do
Kossen-rufu,
pela grande estrada dourada
de paz e felicidade.
“À minha existência, viva!
Sou eu de vitórias mil!”
Levantemos este brado retumbante
pela glória do trabalho triunfante.
Avancemos juntos
na marcha alegre e vitoriosa
ao compasso de união incomparável rumo ao ano 2010 —
Cinquentenário do
Kossen-rufu do Brasil!
Que haja saúde em ti,
vanguardista do novo milênio!
Que haja vitória em ti,
Monarca do Kossen-rufu mundial!
Que haja perene prosperidade
na terra natal de meu coração,
Brasil que se ergue soberbo!
Em 22 de julho de 2001.
Na data da honrosa outorga
do título de Cidadão Honorário
da Cidade de Itapevi, Estado de
São Paulo, no Memorial
Makiguti de Tóquio.
Oro do fundo de meu coração
pela felicidade, saúde e longevidade
cada vez mais abundantes
de todos os companheiros do Brasil,
meus tão preciosos amigos.
Ofereço também minhas profundas orações a todos os
respeitáveis beneméritos
que faleceram durante a jornada
do Kossen-rufu do Brasil.
Espelhando minha maior alegria
e a mais intensa esperança
na expectativa de novamente
visitar a amada terra do Brasil,
junto as mãos em oração.
Terra natal do meu coração,
amigo que me aquece a alma,
chão celestial da minha vida!
Oh! Brasil!
És minha vida!
Teu levantar impávido
abriu o caminho glorioso
do Kossen-rufu mundial!
Viva, Brasil!
Meu amado Brasil!
Sublime nação do ser humano!
Ainda se aconchega em
meu peito
a doce luz do verão de 1993
que banhava Itapevi,
cidade vizinha de São Paulo.
Ali por fim conheci
o castelo do tesouro,
o Centro Cultural Campestre
com seu exuberante jardim.
A filosofia e a amizade,
ali, são flores banhadas pelo
orvalho da sinceridade.
O fulgor dourado das acácias,
quaresmeiras roxas e rosadas,
vitórias-régias em flor,
brancos lótus tropicais,
mais de cem mil cosmos,
hibiscos, begônias, girassóis...
Todos plantados com dedicação
nos bosques e nas colinas,
florescem radiantes com
todo o esplendor do verde louro.
Ainda me recordo quando sugeri
aos jovens a quem confiei o futuro:
— Vamos dar nome a estas colinas
e àquelas montanhas.
Eles responderam com sabedoria:
— Montanha Mestre e Discípulo!
— Colina Pôr-do-Sol!
Foi um momento de
perfeita harmonia.
Com a beleza de uma obra de arte,
a Colina Pôr-do-Sol se acendeu
escarlate naquela tarde.
Puro esplendor era o poente,
enquanto a Montanha Mestre e
Discípulo mostrava orgulhosa
seu aspecto majestoso.
Foi quando escrevi:
“Sol e bosque são radiantes
na Montanha Mestre e Discípulo
que observa nossa felicidade!”
“Vejo na Montanha Soka
o permanente alicerce
do futuro que nunca se acaba.”
Nada mais belo
do que o reino luminoso
da confiança entre os homens.
Nada mais respeitável
do que o juramento eterno
entre mestre e discípulo.
Disse-me Athayde,
o defensor dos direitos humanos:
— Tanto no Ocidente
como no Oriente,
a mais preciosa virtude
é a confiança no ser humano
cultivada a cada instante
pela crença na relação
entre mestre e discípulo.
A verdadeira crença
eleva e une os homens,
abre e une os corações.
Mestre e discípulo
— a solidariedade verdadeira
entre os seres humanos.
Eis por que a relação
entre mestre e discípulo
é espírito de procura,
desenvolvimento constante
e uma relação eterna.
Kossen-rufu é batalha de mestre e
discípulo.
Buda é quem vence, infalível, e
Brasil é esperança absoluta.
Oh! Brasil!
De tua filha, a índia Iracema,
e do português Martim
nasceu o valente Moacir.
Diz a lenda que desse casal
descende multidão de brasileiros.
Comunhão de raças,
convivência humana,
sonho da democracia racial —
são ideais que fincaram
raízes no Brasil.
Quanto mais te conheço,
quanto mais te visito,
mais palpitante fica meu coração
perante teu poderoso encanto.
O samba, a alma de teu povo.
O carnaval, a energia de tua gente.
Todas as raças cantam e
dançam juntas na maior festa
popular do mundo.
Por que no Brasil
surgiu uma cultura popular
tão autêntica e cheia de paixão?
Ela é a flor e o fruto
de sua turbulenta história
de quinhentos anos.
O anti-humanismo,
o terror da opressão,
a fibra de seu povo soube vencer.
Essa é sua origem.
Nasceu do sofrimento
e da perseverança que venceu
a cobiça secular em busca do ouro.
Por isso proclama orgulhoso:
— Sou teu povo heróico e imbatível!
Por maior que seja o poder,
por mais forte que seja a violência,
nada poderá dominar
a alma altiva do homem.
Um povo autêntico
pode até ser humilhado,
mas nunca destruído.
Quanto mais escarnecido,
mais forte se levanta.
A história da humanidade
aguarda perseverante,
como aurora que se ergue,
a vitória de um povo
sobre seus opressores.
Sua gente heróica move a história
e é a força que abrirá o futuro.
Jorge Amado,
o mestre da literatura brasileira,
enaltece a convivência
harmoniosa das raças
como a dádiva mais
rica dos brasileiros
para a causa do humanismo.
Qual o bem fundamental
que pode o homem deixar
para o futuro da humanidade?
Tão simplesmente o rumo,
o claro e seguro rumo,
para a conquista mais digna
da condição humana:
a convivência solidária das raças.
Oh! Brasil!
Amigos que tanto amo!
A jornada que escolhemos
não é de sossego nem de mágoas.
É o caminhar seguro e valente
desfraldando a
bandeira da esperança,
do otimismo e da convicção!
Não faz mal que seja pouco,
o que importa é que o avanço de hoje
seja maior que o de ontem.
Que nossos passos de amanhã
sejam mais largos que os de hoje.
Que sejam humanistas de
braços fortes
em luta solidária
com as pessoas deserdadas.
Atuem agora e vivam o presente
com a certeza de que neste
exato instante está se
erguendo o futuro.
Deixem seus méritos
gravados na história de suas
contínuas vitórias!
A dificuldade no momento presente
será a glória em seu futuro!
O desbravar do caminho do
novo século será proporcional a
sua caminhada!
Jamais esquecerei
o amigo que luta pela paz, a
amiga que incentiva os
companheiros e o
nobre labor compenetrado
no palco sem desejo de
palmas e ovações.
Oh! filhos do leão!
Os que no Brasil jamais se abalaram
ante a covardia e a ingratidão
de animais disfarçados em mantos clericais, larápios que
usurparam a nobreza do Budismo.
Bonzos decadentes lá em cima
e, embaixo, os membros fiéis
que caminham na retidão:
— Heresia que profana
o sonho brasileiro
da igualdade entre os homens.
Oh! Brasil!
Em ti floresceu a justiça
da Lei Suprema, porque
aprendeste o ensino sagrado:
“Quando bonzos hereges incitam
milhares de seres a banir o sábio,
aquele que mantém em seu coração
o espírito do rei leão
certamente se tornará um buda.”
Oh! Brasil!
Venceste!
Venceste em tudo!
Impávido triunfo conquistaste!
Em Curitiba,
a primeira Praça Makiguti do mundo!
No Estado de São Paulo, a
primeira Rua Toda do mundo!
Em Londrina,
o honroso Parque Ecológico Ikeda!
Do Rio de Janeiro,
a homenagem em louvor à Soka
Tomando a vanguarda do mundo.
E na poética terra do Amazonas
se expande a profunda
amizade e confiança.
Em todo o mundo se distingue
o Brasil com mais de
cem homenagens.
Aqui e ali, em todos os recantos,
desponta o esplendor de
mestre e discípulo Soka exaltando o alto valor de Makiguti e Toda.
Uma pessoa disse admirada:
— No mundo inteiro,
o Brasil é o maior Castelo dos
Três Mestres!
Eis a prova inabalável
que espelha orgulho:
a dedicação de meus companheiros,
cidadãos de bem,
estreitando os laços da
convivência confiante.
Não tenho sombra de dúvida
que a boa sorte desse labor
se estenderá por todas as existências
de geração a geração.
Quem decidiu a vitória colossal
do Kossen-rufu mundial no século XX
foram meus companheiros do Brasil.
E o descortinar do triunfo no século XXI foi abrilhantado
também com galhardia
por meus gloriosos companheiros
do Brasil.
O sábio Darcy Ribeiro
conclui em seu O Povo Brasileiro:
“Estamos nos construindo na luta
para florescer amanhã
como uma nova civilização,
mestiça e tropical,
orgulhosa de si mesma.
Mais alegre porque mais sofrida.
Melhor porque incorpora em si
mais humanidades.
Mais generosa porque
aberta à convivência com
todas as raças e todas as culturas,
e porque assentada na mais bela e
luminosa província da Terra.”
Meus amigos!
No futuro do Brasil não cabe
nem pessimismo nem desilusão.
No horizonte de sua jornada
fulgura sem fim
o azul do céu profundo
de glórias e esperanças.
“A voz executa o trabalho do Buda.”
Eis nossa poderosa arma —
o diálogo sincero,
o rugido corajoso do leão.
A sagrada escritura exalta:
“A Lei não se propaga por si mesma.
Por ser propagada pelas pessoas,
tanto a Lei como as pessoas
tornam-se dignas de respeito.”
Oh! meus amigos!
Por mais distantes que estejamos
nunca estamos separados,
mais próximo está nosso coração.
Percorramos juntos eternamente,
sublimes companheiros do
Kossen-rufu,
pela grande estrada dourada
de paz e felicidade.
“À minha existência, viva!
Sou eu de vitórias mil!”
Levantemos este brado retumbante
pela glória do trabalho triunfante.
Avancemos juntos
na marcha alegre e vitoriosa
ao compasso de união incomparável rumo ao ano 2010 —
Cinquentenário do
Kossen-rufu do Brasil!
Que haja saúde em ti,
vanguardista do novo milênio!
Que haja vitória em ti,
Monarca do Kossen-rufu mundial!
Que haja perene prosperidade
na terra natal de meu coração,
Brasil que se ergue soberbo!
Em 22 de julho de 2001.
Na data da honrosa outorga
do título de Cidadão Honorário
da Cidade de Itapevi, Estado de
São Paulo, no Memorial
Makiguti de Tóquio.
Oro do fundo de meu coração
pela felicidade, saúde e longevidade
cada vez mais abundantes
de todos os companheiros do Brasil,
meus tão preciosos amigos.
Ofereço também minhas profundas orações a todos os
respeitáveis beneméritos
que faleceram durante a jornada
do Kossen-rufu do Brasil.
Espelhando minha maior alegria
e a mais intensa esperança
na expectativa de novamente
visitar a amada terra do Brasil,
junto as mãos em oração.
Do poeta laureado do mundo
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Às vésperas de fazer 80 anos, Ferreira Gullar prepara livro e peça
Maria Carolina Maia
"A poesia nasce do espanto. Nasce quando eu estou na sala, me levanto para atender ao telefone e o osso do fêmur bate no da bacia. Eu desligo o telefone e penso, mas que é isso, um osso batendo dentro de mim?"
Com a morte do mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e do pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999), a coroa da poesia nacional voou, sem escalas, para a cabeça do maranhense Ferreira Gullar - posição reforçada pela recente conquista do Prêmio Camões, principal distinção dada a escritores de língua portuguesa. Ainda que pouco afeito a vestes institucionais, ele não teve como evitá-lo, e assumiu com consciência a responsabilidade. “É por isso que eu publico pouco. Não posso escrever besteira.” O que o poeta fala se explica em números. No mês em que completa 80 anos, setembro próximo, ele lança pela José Olympio, editora que detém a exclusividade da sua poesia, Em Alguma Parte Alguma . Será seu primeiro livro após Muitas Vozes, de 1999, que por sua vez chegou 12 anos depois de seu antecessor, Barulhos. Mas o livro não vem sozinho. Chega acompanhado da peça O Homem como Invenção de si Mesmo, que marca o retorno de Gullar ao gênero teatral após 30 anos, e deve entrar em cartaz em São Paulo ainda em 2010. Foi sobre a peça, o livro – de que leu dois poemas com exclusividade a VEJA.com–, a política e a vida que o poeta falou na entrevista a seguir.
O livro tem três partes sem nome, que podem ser separadas pelo conteúdo. Uma delas fala do cosmos, do problema da galáxia e da Terra e da vida e da luz, uma série de coisas. Outra tem poemas mais ligados ao meu livro anterior, como um sobre (José Maria) Rilke e a morte, que é um texto longo. A terceira parte tem um jogo entre a ordem e a desordem. Esse é um dos temas básicos do livro. Vários poemas tratam disso. A linguagem é ordem. Fora da linguagem, a emoção e a vivência são desordem, porque ainda não estão organizadas em linguagem. A poesia se realiza num jogo dialético entre a ordem e a desordem. O título do poema que abre o livro já diz tudo, Fica o não dito por dito. Não tem a expressão “Fica o dito por não dito”? O título do poema é o contrário. Porque a poesia a gente não consegue dizer, o poeta tenta dizer o que não é possível. Então, faz de conta que eu disse (risos).
E a peça O Homem como Invenção de si Mesmo, do que trata?
Essa peça (risos) é uma teoria (ele diz “tioria”). Eu, ao longo dos anos, cheguei à conclusão de que a vida é uma coisa inventada. Que nós inventamos a nossa vida e nos inventamos. Cada pessoa se inventa. O cara se inventa poeta, se inventa pintor, se inventa músico, se inventa como qualquer pessoa comum do mundo, porque, quando nascemos, não somos ninguém, não temos nem nome. É a cultura que vai nos formando, e a sociedade toda é uma invenção, uma coisa criada. Os valores, a religião, a ciência são coisas inventadas, não são coisas da natureza. Nós somos natureza, nosso corpo é natureza, mas nós vivemos no mundo da cultura. São valores que nos constituem. Como não sou filósofo, não iria escrever um tratado para mostrar minha teoria, entendeu? Então, resolvi escrever uma peça, um monólogo engraçado em que essa teoria é exposta.
O senhor tem algum ator em mente para o papel?
Não. Não sou eu que estou fazendo a montagem. O Robson Phoenix, o diretor, é que vai escolher o ator e produzir a peça.
(Risos.) Todo mundo se inventa, mas não é gratuito. É preciso ter as qualidades para o papel que nos inventamos. Se o cara se inventa filósofo, é porque quer e porque descobre dentro dele que é capaz de ser isso. É uma mistura de acaso e de vontade, mas também de necessidade. Isso é um aspecto. O outro aspecto é o seguinte: a invenção que você quer fazer de você mesmo tem que ter o reconhecimento do outro. Se você diz que é músico, mas o que compõe não é bom, você não consegue se inventar como músico.
O senhor alguma vez teve medo de não conseguir se inventar poeta?
Não. Cada pessoa, cada personagem tem um modo de se conceber e de se inventar. Eu confesso a você que nunca planejei ser poeta. Eu fui descobrindo que podia ser isso aos poucos. Na escola, quando fiz uma redação que a professora achou legal, descobri que podia ser escritor. Aí, comecei a ler gramática, porque precisava saber escrever corretamente. Eu fui me preparando, certo de que eu ia ter de batalhar muito para fazer uma boa poesia. Eu queria fazer o melhor possível.
O senhor procurou a opinião de poetas mais experientes?
Não. Eu tive mestres como Rilke, um dos poetas que me revelaram o que deve ser a poesia. Meus mestres foram Rilke, Drummond, Murilo Mendes, Rimbaud, Mallarmé, Jorge Luís Borges.
É curioso o senhor citar Borges, porque ele tem um posicionamento político diferente do seu. Isso significa que o senhor separa as coisas.
Ah, é evidente, imagina... Não tem nada que ver. Ele é um extraordinário escritor. Agora, tem de entender melhor o Borges também, porque o pessoal tem mania de botar as pessoas em categorias: esquerda, direita, revolucionário, reacionário. Isso eu vejo hoje com certa reserva. O que importa é que Borges era um baita de um escritor, um homem de uma riqueza imaginária, uma poética extraordinária. Estou pouco ligando se ele era de direita ou de esquerda.
E, atualmente, a oposição direita x esquerda parece ter perdido o sentido.
Pois é. Imagina, o (Hugo) Chávez é de esquerda, mas o ídolo dele é o (Mahmoud) Ahmadinejad (governante do Irã). O Lula é de esquerda, mas vive de braço dado com o Ahmadinejad, também. Aquilo ali é uma ditadura teocrática, uma das coisas mais reacionárias do mundo. As coisas são complexas. O erro é querer definir tudo com essas expressões - direita, esquerda -, porque são esquemáticas e não levam em conta a riqueza e a complexidade da vida real.
Segundo a sua teoria, todo mundo se inventa. Por que, então, há quem queira se inventar poeta e não consiga?
Qual o tema principal de Em Alguma Parte Alguma ?
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