quarta-feira, 27 de outubro de 2010

A educação como produto do meio



O poeta Ferreira Gullar fala de sua visão particular sobre o processo educacional - a de que, na verdades, tudo e todos são agentes constantes de educação, e não somente a escola. E defende a melhor formação dos professores. Além, é claro, de melhores salários.

Ferreira Gullar

Um dos mais celebrados poetas da história moderna brasileira, o maranhense Ferreira Gullar exerceu várias atividades antes de publicar o que muitos consideram a sua obra-prima, “Poema Sujo”, em 1976. Antes disso, Gullar trabalhou como redator em jornais, escreveu peças de teatro e foi diretor da Fundação Cultural de Brasília. Entre estas atividades, o escritor também foi um dos presidentes do Centro Popular de Cultura da maior entidade estudantil do país, a União Nacional dos Estudantes (UNE), em 1963.

Além de todas estas atividades, também exerceu o seu lado educador. Num de seus discursos mais ferozes, pronunciado em 1983, Gullar, que completou 77 anos no último dia 10 de setembro, ressaltou a importância da educação para a mudança dos paradigmas de sociedade. Além disso, o poeta reforça a temática do “homem como produto do meio”, recorrente da teoria conhecida como determinismo, e lembra que em uma sociedade que trata seus cidadãos com injustiça, a tendência é que a própria educação seja injusta. Passados 24 anos do referido discurso, o poeta fala de algumas das suas posições exprimidas naquela ocasião, comenta o estágio atual da educação no país e fala da importância da classe docente para a formação do cidadão.
O texto acima foi escrito há mais de 20 anos. O que mudou na sua visão sobre a educação ao longo deste período?

Ferreira Gullar - Não diria hoje que a sociedade injusta educa para a injustiça. Na sociedade injusta há pessoas justas, que educam para o melhor.
Em linhas gerais, o Brasil avançou ou retrocedeu na área educacional nas últimas décadas?

Creio que avançou, pelo menos no que diz respeito ao ensino fundamental. Hoje temos praticamente quase todas as crianças em idade escolar matriculadas.
É possível pensar num modelo de educação eficaz e transformador numa sociedade tão marcadamente injusta como a brasileira?

Sim, é possível. A vida é inventada e, por isso mesmo, as coisas podem ser mudadas e melhoradas. Exatamente porque a sociedade é injusta é que devemos lutar para mudá-la e ensinar melhor as pessoas.
Acredita que, historicamente, a escola tem servido como reprodutora do sistema social estabelecido, em vez de atuar como um agente de transformação da sociedade?

Em grande parte sim, a escola reproduz o sistema social estabelecido. Por isso, é preciso preparar os professores para que compreendam melhor e ensinem melhor. Não se trata de fazer tábula rasa do que existe, já que isso é impossível e, além do mais, errado. Nem tudo o que se ensina está errado, certo?
De onde vêm os piores exemplos para a área educacional? Seria mesmo da classe política?

A classe política dá um mal exemplo, embora existam exceções. Na maioria dos casos é o que se tem visto. Mas não são só os políticos que, com seu exemplo, educam mal.
Partindo desse princípio - de que todos somos educadores - seria correto imaginar que a verdadeira revolução da educação se dará não somente nas escolas, mas principalmente no meio social como um todo?

Trata-se de um processo muito complexo, exatamente porque envolve toda a sociedade. A maioria das pessoas se pauta pelos valores conservadores e alguns deles são, de fato, fundamentais, como a justiça, a solidariedade, o respeito pelo outro. Os valores novos custam a se impor e nem sempre são melhores - somente por serem novos. A sociedade os testa, examina, e aceita ou rejeita. O fundamental é evitar que os valores essenciais se percam.
Como dar a largada neste processo? Seria o caso de uma campanha nacional de conscientização sobre as responsabilidades de cada um de nós para com os outros?

Sim, apostar na educação é fundamental. Mas seria necessário discutir bem antes de partir para uma campanha nacional de conscientização. Não é uma coisa para ser improvisada e sair alardeando.
Como vê o papel da mídia brasileira neste contexto? Ela mais educa ou deseduca a população? É a favor de alguma espécie de controle sobre os meios de comunicação?

A mídia, no geral, presta um bom serviço, na medida em que informa, traz à tona os problemas e contribui para a sua discussão. Comete erros, mas é melhor errar do que impedir o debate e a divulgação dos fatos e das idéias.
É motivo de críticas, entre muitos intelectuais, o fato de o presidente Lula, por vezes, se vangloriar de ter chegado ao posto máximo da República mesmo sem grande carga de educação formal. Como vê essa questão? Até que ponto um presidente com este perfil - e este discurso - é um bom ou um mau exemplo para a população jovem do país?

A questão não é ter ou não diploma universitário. Machado de Assis não cursou universidade, mas era um homem culto. Cultura se adquire até sem escola, embora seja melhor que todos possam ir à escola. Ruim é alardear que a cultura é desnecessária e que o corpo-a-corpo com o povo ensina mais que os livros. Uma coisa não exclui a outra, mas os livros ensinam mais, pois contêm as experiências e idéias de muitos homens e de muitas gerações. Numa época em que o conhecimento é fundamental para o desenvolvimento das nações, é melhor que o governante não seja inculto.
Quem fez mais pela educação no Brasil: o torneiro mecânico Luiz Inácio Lula da Silva ou o sociólogo Fernando Henrique Cardoso?

Fernando Henrique criou o Fundef, que muito contribuiu para a ampliação do ensino fundamental. Lula tem buscado ampliar esse projeto e tomado outras iniciativas em seu segundo mandato.
Quais lembranças tem de seus professores? Em que medida eles o atraíram ou o afastaram do universo literário?

Não tive estímulo especial de nenhum professor nesse sentido. Mesmo porque, estudei numa escola que visava formar sapateiros, marceneiros e mecânicos.
As artes deveriam estar mais presentes no ambiente escolar?

Sem dúvida alguma. Deve-se estimular a criatividade das crianças, não para transformar todas elas em artistas. E sim porque a arte enriquece a vida das pessoas.
É possível que o professor consiga ser um disseminador da cultura e do hábito da leitura quando, na maioria das vezes, sabemos que ele próprio não tem acesso a estes benefícios?

Por isso é necessário formar melhor os professores e, também, pagá-los melhor.
De que forma os professores devem trabalhar a literatura em sala de aula? Num mundo tão corrido, repleto de informações e ambientes virtuais, ainda há espaço para o exercício lúdico de embarcar numa viagem proposta por um livro?

Não sei a fórmula, não sou professor. Mas não acho que a televisão e o computador tornem inviável o interesse pela literatura. Há, sim, que se começar bem cedo, a fim de que a leitura se torne um hábito na criança.
Que mensagem o senhor deixaria aos professores do país no dia 15 de Outubro?

Diria aos professores que está nas mãos deles uma das tarefas mais nobres e essenciais para o futuro da sociedade e dos indivíduos.
  

Um comentário:

  1. Olá, gostei muito do seu blog e resolvi acompanhá-lo pq tem reflexões interessantes sobre essa nossa área tão fundamental, mas tão esquecida muitas vezes. No meu blog, que é de iniciante, também quero utilizá-lo para fins de muita reflexão, discussão, estudos sobre o momento atual e futuro. Me acompanhe também, o endereço é: http://palavrasdeumnovomundo.blogspot.com
    Abraço. Rosa

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