terça-feira, 5 de outubro de 2010

Às vésperas de fazer 80 anos, Ferreira Gullar prepara livro e peça



Maria Carolina Maia
"A poesia nasce do espanto. Nasce quando eu estou na sala, me levanto para atender ao telefone e o osso do fêmur bate no da bacia. Eu desligo o telefone e penso, mas que é isso, um osso batendo dentro de mim?"
Com a morte do mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e do pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999), a coroa da poesia nacional voou, sem escalas, para a cabeça do maranhense Ferreira Gullar - posição reforçada pela recente conquista do Prêmio Camões, principal distinção dada a escritores de língua portuguesa. Ainda que pouco afeito a vestes institucionais, ele não teve como evitá-lo, e assumiu com consciência a responsabilidade. “É por isso que eu publico pouco. Não posso escrever besteira.” O que o poeta fala se explica em números. No mês em que completa 80 anos, setembro próximo, ele lança pela José Olympio, editora que detém a exclusividade da sua poesia, Em Alguma Parte Alguma. Será seu primeiro livro após Muitas Vozes, de 1999, que por sua vez chegou 12 anos depois de seu antecessor, Barulhos. Mas o livro não vem sozinho. Chega acompanhado da peça O Homem como Invenção de si Mesmo, que marca o retorno de Gullar ao gênero teatral após 30 anos, e deve entrar em cartaz em São Paulo ainda em 2010. Foi sobre a peça, o livro – de que leu dois poemas com exclusividade a VEJA.com–, a política e a vida que o poeta falou na entrevista a seguir.


O livro tem três partes sem nome, que podem ser separadas pelo conteúdo. Uma delas fala do cosmos, do problema da galáxia e da Terra e da vida e da luz, uma série de coisas. Outra tem poemas mais ligados ao meu livro anterior, como um sobre (José Maria) Rilke e a morte, que é um texto longo. A terceira parte tem um jogo entre a ordem e a desordem. Esse é um dos temas básicos do livro. Vários poemas tratam disso. A linguagem é ordem. Fora da linguagem, a emoção e a vivência são desordem, porque ainda não estão organizadas em linguagem. A poesia se realiza num jogo dialético entre a ordem e a desordem. O título do poema que abre o livro já diz tudo, Fica o não dito por dito. Não tem a expressão “Fica o dito por não dito”? O título do poema é o contrário. Porque a poesia a gente não consegue dizer, o poeta tenta dizer o que não é possível. Então, faz de conta que eu disse (risos).


E a peça O Homem como Invenção de si Mesmo, do que trata?
Essa peça (risos) é uma teoria (ele diz “tioria”). Eu, ao longo dos anos, cheguei à conclusão de que a vida é uma coisa inventada. Que nós inventamos a nossa vida e nos inventamos. Cada pessoa se inventa. O cara se inventa poeta, se inventa pintor, se inventa músico, se inventa como qualquer pessoa comum do mundo, porque, quando nascemos, não somos ninguém, não temos nem nome. É a cultura que vai nos formando, e a sociedade toda é uma invenção, uma coisa criada. Os valores, a religião, a ciência são coisas inventadas, não são coisas da natureza. Nós somos natureza, nosso corpo é natureza, mas nós vivemos no mundo da cultura. São valores que nos constituem. Como não sou filósofo, não iria escrever um tratado para mostrar minha teoria, entendeu? Então, resolvi escrever uma peça, um monólogo engraçado em que essa teoria é exposta.

O senhor tem algum ator em mente para o papel?
Não. Não sou eu que estou fazendo a montagem. O Robson Phoenix, o diretor, é que vai escolher o ator e produzir a peça.
(Risos.) Todo mundo se inventa, mas não é gratuito. É preciso ter as qualidades para o papel que nos inventamos. Se o cara se inventa filósofo, é porque quer e porque descobre dentro dele que é capaz de ser isso. É uma mistura de acaso e de vontade, mas também de necessidade. Isso é um aspecto. O outro aspecto é o seguinte: a invenção que você quer fazer de você mesmo tem que ter o reconhecimento do outro. Se você diz que é músico, mas o que compõe não é bom, você não consegue se inventar como músico.

O senhor alguma vez teve medo de não conseguir se inventar poeta?

Não. Cada pessoa, cada personagem tem um modo de se conceber e de se inventar. Eu confesso a você que nunca planejei ser poeta. Eu fui descobrindo que podia ser isso aos poucos. Na escola, quando fiz uma redação que a professora achou legal, descobri que podia ser escritor. Aí, comecei a ler gramática, porque precisava saber escrever corretamente. Eu fui me preparando, certo de que eu ia ter de batalhar muito para fazer uma boa poesia. Eu queria fazer o melhor possível.

O senhor procurou a opinião de poetas mais experientes?
Não. Eu tive mestres como Rilke, um dos poetas que me revelaram o que deve ser a poesia. Meus mestres foram Rilke, Drummond, Murilo Mendes, Rimbaud, Mallarmé, Jorge Luís Borges.

É curioso o senhor citar Borges, porque ele tem um posicionamento político diferente do seu. Isso significa que o senhor separa as coisas.
Ah, é evidente, imagina... Não tem nada que ver. Ele é um extraordinário escritor. Agora, tem de entender melhor o Borges também, porque o pessoal tem mania de botar as pessoas em categorias: esquerda, direita, revolucionário, reacionário. Isso eu vejo hoje com certa reserva. O que importa é que Borges era um baita de um escritor, um homem de uma riqueza imaginária, uma poética extraordinária. Estou pouco ligando se ele era de direita ou de esquerda.

E, atualmente, a oposição direita x esquerda parece ter perdido o sentido.
Pois é. Imagina, o (Hugo) Chávez é de esquerda, mas o ídolo dele é o (Mahmoud) Ahmadinejad (governante do Irã). O Lula é de esquerda, mas vive de braço dado com o Ahmadinejad, também. Aquilo ali é uma ditadura teocrática, uma das coisas mais reacionárias do mundo. As coisas são complexas. O erro é querer definir tudo com essas expressões - direita, esquerda -, porque são esquemáticas e não levam em conta a riqueza e a complexidade da vida real.


Segundo a sua teoria, todo mundo se inventa. Por que, então, há quem queira se inventar poeta e não consiga?



Qual o tema principal de Em Alguma Parte Alguma?

3 comentários:

  1. Para saber mais aceshttp://veja.abril.com.br/noticia/celebridades/as-vesperas-de-fazer-80-anos-ferreira-gullar-prepara-livro-e-pecase:

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  2. http://veja.abril.com.br/blog/meus-livros/tag/ferreira-gullar/

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  3. http://www.youtube.com/watch?v=oUOnbhj9rqU&feature=player_embedded

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