Conhecido pelos poemas e franqueza, o poeta maranhense Ferreira Gullar criticou a Bienal do Livro de São Paulo durante a 8ª Festa Literária Internacional de Paraty.
De acordo com ele, o evento literário paulistano aceita obras sem qualidades para serem apresentadas no evento.
"A Bienal do Livro de São Paulo é de vanguarda, qualquer loucura que uma pessoa manda pra lá é aceita e exposta", debochou o poeta, que foi aplaudido pela plateia da Flip por essa declaração.
Amante das artes plásticas, Ferreira Gullar disse que pensa mais na pintura do que na poesia.
"A poesia é mais complexa. Sou um amante das artes plásticas. Posso dizer que hoje vou fazer um artigo para o jornal, mas um poema, não. É algo que nasce de situações do cotidiano, não chega a ser um milagre. Um galo cantando no quintal pode despertar o poeta. Não tem explicação", afirmou.
Nascido em 1930 na capital do Maranhão, ele vive no Rio de Janeiro desde 1951, onde foi presidente de uma das divisões da União Nacional dos Estudantes (UNE) e se filiou ao Partido Comunista. No Golpe Militar de 1954, precisou deixar o Brasil para não ser perseguido pelos militares e se exilou em países da América do Sul como Argentina e Chile.
"Quando fui para Brasília e conheci os operários que construíram a cidade, comecei a refletir sobre os problemas do País e me engajei na luta política. Queria ajudar a mudar o Brasil. Mas veio o golpe de 54 e provou que eu estava errado. Não é fácil mudar o País. Isso também foi um exemplo pra mim na literatura. Se é para não mudar nada, é preferível fazer boa poesia. Uma má poesia não vai mudar nada",
Em Buenos Aires, ainda durante o exílio, ele escreveu o seu poema mais famoso, Poema Sujo.
"Escrevi este poema de maio a outubro. Num determinado momento, a inspiração acabou. Até que um dia fiz os últimos versos. Minha esposa foi até lá e gostou do poema. Depois de muita insistência do Vinícius de Morais, li o poema. Ele se emocionou, o que não era muito difícil de acontecer. O Vinícius gravou o poema e trouxe para o Brasil, onde foi publicado em uma noite de autógrafos sem o autor", divertiu-se Ferreira Gullar.
Nos momentos finais da palestra, ele agradeceu à plateia pelo carinho.
"É bom escrever poesia. Ninguém te obriga a fazer. É mentira quando o poeta diz que sofre ao fazer poemas", voltou a brincar.
Aplaudido de pé por cerca de um minuto pelos seus fãs, Ferreira Gullar encerrou com uma simpática declaração:
"Fico feliz em saber que a poesia ainda tem o poder de comover as pessoas", disse.
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